
Gerir o caos provocado por uma catástrofe é uma das mais complexas situações em que o Homem se vê confrontado, requer uma capacidade de comando tático e estratégico semelhante ao que é necessário na frente de um campo de batalha numa guerra, de lidar com um grupo grande de pessoas, uma capacidade de tomada de decisão com rapidez e de gestão de prioridades, além de saber frenar suas próprias emoções, mantendo a “cabeça fria”, associado a ter uma capacidade de organização.
Quem for detentor dessa capacidade assume a liderança da situação, sabe que terá várias frentes que necessitam de intervenção imediata e em simultâneo:
*Feridos que necessitam de assistência médica;
*Desalojados que precisam de alimento, água, agasalho e acolhimento físico, psicológico e espiritual que estão em pânico, desesperados, desequilibrados emocionalmente, violentos e agressivos;
*Vítimas que estão debaixo dos escombros;
*Corpos sem vida, espalhados por toda parte, precisando ser identificados e enterrados, pois começam a entrar em decomposição;
*Escombros obstruindo a circulação, mas podendo ter vidas soterradas a espera de serem socorridas.
*Ausência de água potável, eletricidade;
* Escassez de recursos;
*Ausência de alojamento sólido, infra estrutura que ofereça segurança.
* Tumulto, pilhagem, falta de segurança
É difícil imaginar como iniciará a gestão do caos formado, aquele que está qualificado para assumir tal missão, será como um polvo com vários tentáculos, provavelmente começará por fazer um levantamento do número de profissionais e de pessoas com quem contará para ficar à frente das várias linhas de actuação:
*Uma pessoa para coordenar a assistência aos feridos;
* Outra para coordenar o atendimento aos desalojados;
* Mais uma para coordenar o resgate das vítimas sobre os escombros;
*Outra pessoa para coordenar a remoção dos escombros e manter as vias de acesso desimpedidas;
*Mais uma pessoa para coordenar a identificação dos cadáveres e providenciar o enterro dos mesmos.
*Mais outra para coordenar a segurança dos que estão ajudando.
Esses coordenadores por sua vez terão que delinear a sua atuação, desde improvisar o local aonde executarão a tarefa que lhe foi destinada, recrutar e orientar voluntários para a construção do local e para o atendimento, listar o material básico necessário para o desempenho da tarefa, entregar ao líder que tentará adquiri-lo, até a elaboração do método de funcionamento que será seguido. Por exemplo, se for o atendimento aos feridos, deverá ter circuito de entrada diferente da saída, identificar os feridos que chegam à entrada, encaminhá-los para o atendimento e depois se for necessário encaminhar para o local de observação, onde cada local estará numerado e corresponderá ao utente identificado. Se não for ficar em observação, encaminhar para a saída, dar “baixa” do nome e encaminhar para o setor dos desalojados, dando o destino na ficha de entrada.
Cada coordenador liderará o grupo de voluntários que recrutou, solucionando os problemas que forem surgindo mantendo o líder geral informado da evolução do funcionamento do setor que representa, este mantém comunicação com as instituições e governos da vizinhança para ir adquirindo o que for sendo necessário.
Muitos dirão que tudo isso em termos organizacionais é muito bonito, mas só em termos de teoria, sentado á frente de um computador e ainda dirão mais "olha essa... descobriu a pólvora sem fazer barulho" ou "só contaram para você", só que no terreno não é exequível. Concordo que pensar estando de fora é simples e que tudo se modifica quando estamos dentro da situação, porém todos concordarão que gerir o caos necessita de organização com definição de estratégias a partir do levantamento das necessidades, priorizando-as, levantamento dos recursos materiais e humanos disponíveis ou a disponibilizar, trabalho em equipe obedecendo a uma hierarquia (alguém tem que assumir a liderança, o comando quando se está num grupo e os outros aceitar esse comando em pró de todos cumprindo a respectiva função dentro do grupo) e condições de segurança, só assim a gestão do caos tornar-se-á possível.
Passado o caos, depois que a população foi atendida nas suas necessidades básicas imediatas (restauração da saúde, saciedade da fome e da sede, abrigo do relento), os mortos enterrados, surge a fase do luto e da reconstrução do local, mas isso já será elaborado com tranquilidade, será urgente, mas não emergente como foi o caos imediato pós catástrofe.
Louvor e honra ao mérito a todos aqueles que atuam no terreno do caos imediato a uma catástrofe, em especial, desta que presenciamos no Haiti, que Deus os protejam enquanto estiverem atuando, e os recompensem pela ação humanitária que desenvolveram, por vezes a custa de sacrifício pessoal e familiar.