
Querida Mãe,
O vento carrega tudo inclusive as palavras lançadas ao ar, quem sabe se esta carta também não seja transportada em suas “asas” e chegue até a senhora esteja aonde estiver.
Nunca lhe escrevi uma carta, apenas alguns cartões de aniversário e dia das mães, mas para quê se estivemos sempre juntas, exceptuando os últimos anos em que só estávamos juntas no final de semana, embora nos falássemos diariamente ao telefone. Apesar de estarmos juntas poucas palavras trocamos não é mesmo? Parecíamos duas estranhas a conviver sobre o mesmo teto, eu voltada para os estudos e o trabalho, a senhora nos afazeres domésticos e quando falamos, grande parte eram palavras que feriam mais do que acarinhavam, porque não nos entendíamos, a senhora muitas vezes não compreendia o que eu dizia e acabávamos discutindo gerando muitas lágrimas na senhora, ao fim ao cabo por bobagem, lembra uma das últimas vezes que fui limpar as janelas do meu quarto? A senhora insistiu que eu não fizesse com medo que eu caísse, não adiantou os argumentos de que eu estava fazendo com segurança, a senhora insistiu tanto, ficou muito nervosa, começou a chorar e depois me acusou de ser a responsável pelo seu estado. Quantas lágrimas inúteis, desnecessárias, poderiam ser evitadas se eu atendesse ao seu pedido, embora eu estivesse com a razão, pois tinha tomado as devidas preocupações e não corria nenhum risco, mas se o fizesse quem correria risco seria a senhora, porque a senhora iria fazê-lo depois e era isso que eu queria evitar. Se fosse hoje, eu atenderia o seu pedido e arranjaria uma forma de fazê-lo sem que a senhora percebesse e evitaria que a senhora o fizesse.
Este é um dos muitos conflitos que tivemos, onde nos magoamos mutuamente, mas por excesso de bem querer, a senhora tentando evitar que me acontecesse algo, eu tentando evitar que a senhora corresse risco ou se cansasse, afinal a senhora a vida inteira batalhou pela família, quantas vezes teve de carregar baldes de água de uma fonte, quando faltava água em casa, na altura que nós, seus filhos éramos pequenos! Quantas vezes, a senhora esfregou o soalho com palha-de-aço e passou cera de joelhos! E cuidar de 3 filhos pequenos? Lavar as fraldas de panos, na altura não tinha fralda descartável e nem condições para as ter se houvesse, sozinha porque o papai trabalhava, arduamente, para que não faltasse nada em casa, os senhores não tinham ninguém para os ajudar, estavam numa terra estranha, numa cidade, quando a senhora e o papai estavam habituados aos campos de lavoura da aldeia onde nasceram, cresceram e deixaram logo que se casaram. Nos nossos aniversários nunca faltou um bolinho que a senhora fazia com muito carinho, às vezes de madrugada para nos fazer uma surpresa, outras vezes viajando horas de trem para levar o bolinho, feito com amor, ao seu filho, ele já casado com filhas formadas. No Natal mesmo não tendo dinheiro sobrando a senhora sempre conseguia colocar um brinquedinho no nosso sapatinho, como se fosse o Papai Noel que o tivesse deixado.
Por tudo isso e muito mais, além do que tinha a dupla obrigação de o fazer, por ser filha e por ser mais jovem, é que eu tentava aliviar a sua carga quando eu podia, mas a senhora habituada a vida toda cuidar da família e do lar, por amor queria continuar a fazer o que talvez considerasse um dever, não entendia isso, daí os nossos desentendimentos, as lágrimas vertidas ao longo da vida. Muitas vezes a senhora me chamou de desobediente, respondona, mal criada no auge do desentendimento, eu nunca lhe disse isso, essas palavras feriam profundamente porque sempre procurei ser obediente, sempre tive um profundo respeito pela senhora e pelo papai, sempre os amei e os amo, porém, tive sempre um génio ruim, por ser muito sensível, facilmente me sentia magoada, uma palavra, um tom de voz, uma injustiça e logo como uma fera ferida, esbravejava e estupidamente acabava por proferir palavras que magoavam, mas que não era e nunca fora essa a intenção.
Quanta estupidez ao longo da vida! Se arrependimento matasse, eu estaria morta neste momento. Não obstante as lágrimas que fiz brotar dos seus olhos durante a vida, eu fui incapaz de lhe dar uma passagem serena, de aliviar seu sofrimento quando, chegou o seu crepúsculo, de evitar o terror estampado no seu derradeiro olhar, além de tudo isso nem se quer fiquei ao seu lado após a sua partida, para orar e ajudar o espírito a encontrar a luz (posteriormente a sua partida li em algum sítio que o espírito pode demorar algumas horas antes de desencarnar), outra estupidez ou falta de sensibilidade da minha parte não ter pensado nisso e ter ficado ao seu lado, quando o funcionário da clínica disse para ir tratar do funeral eu nem hesitei, sai com o mano e fomos levar a triste notícia ao papai, se bem que optamos por deixá-lo dormir e contamos de manhã cedo, mas tratou-se de ver o cemitério da sua aldeia para onde a levaríamos para a sua morada final. Depois fomos a funerária, preparei a roupa (até nisso eu falhei, foi preciso o papai dizer “tudo para a minha senhora ir bonita”, porque não tive essa lembrança) só depois entreguei a roupa para que a preparassem (mais uma falha, não tomei a iniciativa de o fazer e não me sentia capaz de o fazer, diferente de quando foi a vovó, lembra-se, a senhora pediu que eu lesse a oração do moribundo para ela que estava agonizando, depois ela partiu serena e eu ajudei a vesti-la).
Peço-lhe Perdão:
Perdão por todas as lágrimas que lhe causei;
Perdão por não ter sido a filha que esperava;
Perdão porque nada fiz para aliviar o peso da sua cruz na vida, muito pelo contrário, ainda devo ter contribuído para que fosse mais pesada;
Perdão por não ter sabido ultrapassar as divergências e não ter demonstrado ou dito o quanto a amava e admirava;
Perdão por não ter recompensá-la por todo o trabalho, todo o carinho e nem ter-lhe proporcionado a realização dos seus sonhos, esquecidos em prol da família, um deles tão simples, o de aprender a decorar os seus deliciosos bolos, como a senhora dissera algumas vezes “um dia ainda vou aprender a enfeitar bolos”;
Perdão por não ter sido capaz de dar uma passagem serena para a senhora;
Perdão pelo terror que vi estampado no seu derradeiro olhar, ao invés de ver a serenidade, como outrora eu vi no rosto da vovó após a oração do moribundo que li a seu pedido;
Perdão porque deixei-a sozinha logo após a sua partida, por considerar que o espírito já estivesse liberto logo que seu coração parou de bater, de respirar pondo fim ao sopro da vida.
O que me resta fazer para diminuir a saudades, preencher esse vazio que ficou, aliviar os remorsos e o peso dessa culpa que carrego? Apenas confiar na Misericórdia Divina, pedir a Deus todas as manhãs antes de começar o dia e todas as noites antes de dormir, que lhe dê o eterno descanso no Esplendor de Sua Luz e Glória perpétua e permita que esteja em paz e sem sofrimento ao lado Dele.
Com amor, gratidão, admiração e eterna saudade
Sua filha
PS: A senhora não imagina a falta que faz... o grande vazio que deixou no nosso coração, no nosso lar e na nossa vida.